50 mil adolescentes engravidam em Mato Grosso

CUIABÁ – Aos 16 anos, Aparecida Cristina Santos queria ingressar no ensino médio e, depois, entrar na universidade. O sonho dela é cursar Medicina Veterinária. Os planos da adolescente, porém, foram suspensos após descobrir que estava grávida.

Assim como Aparecida, outras jovens mato-grossenses também engravidaram durante à adolescência. Conforme dados da Coordenadoria de Vigilância Epidemiológica da secretaria de Estado de Saúde, foram registrados mais de 51 mil casos de gravidez na adolescência – dos 10 aos 19 anos – entre 2014 e 2018, em todo o Estado. Somente na região da Grande Cuiabá, 13 mil adolescentes se tornaram mães nos últimos cinco anos.

Aparecida mora em Cuiabá, cidade que mais registrou casos de gravidez na adolescência em todo o Estado. No ano passado foram 2.143 gestações – o número abrange toda a Baixada Cuiabana. O segundo município com mais casos é Rondonópolis, com 1.346, seguido por Sinop, 1.154 gestações.

Proporcionalmente, entre os casos de gravidez de todas as idades, São Félix do Araguaia registra o maior índice de gravidez entre adolescentes. Na cidade, 24,3% das gestações envolvem jovens na faixa etária de 10 a 19 anos. Já na Grande Cuiabá, 13,8% dos nascidos vivos são filhos de adolescentes.

A ginecologista obstetra Zuleide Cabral, vice-presidente da região Centro-Oeste da Sociedade Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia da Infância e Adolescência, explica que casos de gravidez na adolescência são mais comuns entre jovens de baixa renda.

“Entre os fatores que podem contribuir para essa gravidez estão a baixa escolaridade, o início precoce da vida sexual, a ausência de projetos para o futuro, autoestima baixa, drogas ou violência familiar ou abusos sexuais”, pontua a médica.

Cabral ressalta que a ausência de informações sobre métodos contraceptivos também faz com que muitas jovens engravidem. “Muitas não conhecem sobre contracepção ou não recebem as informações adequadas. Falta orientação adequada, em muitos casos”, afirma a especialista.

Segundo a ginecologista ouvida pela reportagem, os principais problemas da gravidez na adolescência acontecem quando a jovem não faz o pré-natal adequado. “Entre as classes populares, são comuns casos de pré-natal inadequado. Normalmente, elas iniciam o acompanhamento tardiamente e não o fazem de maneira adequada”, explica.

O bebê de Aparecida veio ao mundo no tempo previsto. Após o nascimento da criança, a jovem teve depressão pós-parto. “Tive muitas dificuldades para pegá-lo no colo pela primeira vez, porque não aceitava que tinha me tornado mãe. Foi muito difícil. Precisei passar por acompanhamento psicológico”, relembra.

Hoje, o filho da jovem está com três anos. Ela e o marido, de 21 anos, se casaram ainda na época em que a jovem estava gestante. O garoto passa o dia em uma creche e o companheiro de Aparecida trabalha como garçom em um restaurante da Capital. A jovem conta que tem tentado encontrar um emprego. “Tenho tentado, mas não tive nenhuma resposta até agora, principalmente porque não tenho estudo”, relata.