As árvores que crescem com música

Seu Micolino é coberto pela floresta que ele mesmo plantou - Foto Arquivo JOP

LISBOA – O sul da Amazónia, no Brasil, viu nascer já um milhão de árvores, plantadas ao som do festival de música Rock in Rio, a que se juntam 70 mil em Portugal. O objetivo é chegar a 73 milhões.

Iniciado em 1985, no Brasil, pelo empresário Roberto Medina, o festival de música já completou desde então 17 edições e a próxima começa em Lisboa, já no próximo fim de semana, a oitava nacional desde 2004.

Em 2016, o Rock in Rio iniciou o apoio a projetos de reflorestação, especialmente no Brasil, mas também em Portugal e nos Estados Unidos. Desde então, diz a organização, já foram plantadas mais de três milhões de árvores, entre elas quase 50 mil na Pampilhosa da Serra e 19 mil em Mafra.

Através do projeto “Amazónia Live”, de alerta para as alterações climáticas, espera-se no futuro chegar a 73 milhões de árvores.

Para a edição deste ano, que começa no próximo sábado, em Lisboa, o Rock in Rio lançou o projeto “Está tudo conectado”, de promoção da cidadania ambiental, em parceria com a Liga de Proteção da Natureza. A ideia, explica a organização, é “trazer a floresta para o dia a dia dos portugueses”, explicando como ela está presente em tudo o que se faz, em trabalho ou em lazer.

“Depois dos acontecimentos em Portugal [incêndios], no verão passado, sentimos que tínhamos o dever de contribuir, de alguma forma, na vertente da sensibilização como na vertente de ação coletiva e individual”, disse Roberta Medina, vice-presidente executiva do Rock in Rio.

Mas no Brasil, mais do que sensibilização, o apoio à floresta já é visível em mais de um milhão de árvores nascidas, de três milhões plantadas. Estão pelo sul da Amazónia, no estado de Mato Grosso, entre os rios Xingu e Araguaia.

É ali que está a acontecer uma revolução de consciências, é ali que uma rede de 568 coletores de sementes está a contribuir para voltar a encher a Amazónia de árvores.

Milene Oliveira é uma delas, uma jovem de 20 anos que ganha a vida a apanhar sementes. Em 2016, em declarações à Lusa, afirmava que “o remédio para o aquecimento é plantar árvore”. Hoje continua a apanhar e tratar sementes.

Milene faz parte da “Rede de Sementes do Xingu”, um projeto social do Instituto Socioambiental (ISA) do Brasil que, em menos de uma década, já reflorestou quase quatro mil hectares (500 com o apoio do Rock in Rio), e gerou uma renda de meio milhão de euros, envolvendo agricultores, produtores rurais, comunidades indígenas, pesquisadores, organizações não-governamentais e autarquias.

Mas hoje, com temperaturas cada vez mais altas e mais incêndios, nem os índios do Xingu sabem quando começa a época das chuvas. E as pessoas começaram a olhar para a floresta de outra forma, como Ivan Loch, 55 anos, que colabora com a “Rede de Sementes”.

“Eu fui um predador no passado”, costuma dizer Loch, segundo o qual 90% da população do Mato Grosso está ciente que tem de recuperar o que destruiu.

Amândio Micolino, 85 anos, dono da fazenda São Roque, é o melhor exemplo. Passou a vida a destruir a floresta e, em 2008, achou que o melhor legado que podia deixar aos filhos e netos era precisamente a floresta. Caminha na direção do objetivo de replantar 200 hectares e é sujeito de reportagens por todo o mundo.

Rodrigo Junqueira, coordenador do programa da rede de sementes, o principal projeto do ISA (a maior organização sócio ambientalista genuinamente brasileira, com mais dois programas semelhantes no Paraná e em Manaus), diz que terão sido plantados mais de cinco milhões de árvores. Mas que seriam precisos dois mil milhões.

Rodrigo acredita que é a partir do pouco que se pode aprender e fazer muito. E no Hospital Municipal de Canarana, o município do Mato Grosso à volta do qual se desenvolveu a “Rede de Sementes do Xingu”, também se acredita. Por cada criança que nasce, a mãe recebe uma árvore pequenina para plantar. E algumas plantam-na, com ou sem música.