Cientista político entrevistado pelo JOP diz que o antipetismo elegeu Bolsonaro

CANARANA – O J. O Pioneiro entrevistou João Edison sobre o resultado das urnas do último pleito. Cientista político, mora em Cuiabá e conhece Canarana desde a sua fundação. Ele ajudou o colonizador Norberto Schwantes e escrever o livro Uma Cruz em Terra Nova.
Conforme o cientista político, o que mais lhe agradou nessa eleição foi o enfrentamento diante do poder econômico. “São cerca de 88 deputados federais eleitos no Brasil com base nas redes sociais, portanto, com um custo muito baixo e sem apoio partidário. Foi uma quebra do monopólio dos grandes meios de comunicação através das mídias sociais. Isso significa que nas próximas eleições nós teremos novos modelos de campanha. Vários candidatos tradicionais investiram fortunas e não conseguiram 50% dos votos que esperavam. Então o poder econômico começa a perder um pouco o peso dentro de uma eleição e isso significa que a gente está qualificando um pouco mais o eleitor”. Sobre o que mais lhe desagradou, destacou que, principalmente para presidente, foi a falta de propostas e o foco na desqualificação do adversário.
Para João Edison, a vitória de Bolsonaro foi mais por um antipetismo do que por propostas. “O petista é muito agressivo, rotula demais… apelidando os que pensam contra de coxinha, golpista, fascista, lá atrás de pelego, entreguista. Essas rotulações foram machucando e magoando as pessoas… Então, a grande massa votou para tirar o PT do poder mais do que por não concordar com o modelo econômico do partido. O Bolsonaro não disse nada com nada, mas ele representou um enfrentamento com o grupo do PT. O voto antipetista foi que o elegeu. O voto da concordância com o modelo econômico do Bolsonaro não daria 5%”.
Sobre as dificuldades que o novo presidente irá enfrentar, cita que ele não terá dificuldades em aprovar medidas provisórias no congresso, mas precisará negociar com os parlamentares para mudanças constitucionais. “O equilíbrio econômico do Brasil não é muito fácil. Nos tantos anos do PT houve uma destruição do modelo econômico brasileiro. Para privatizar, terá de passar pelo congresso e não será muito simples. A Previdência é um caso sério e precisa da maioria. Mas ele foi eleito com uma votação significativa e, se conseguir jogar esse peso nos primeiros seis meses, ele consegue fazer as reformas, mas se passar o primeiro ano, não consegue”.
Segundo o cientista, o PT ainda teve bastante voto pelo medo que se criou do que Bolsonaro poderia fazer, como matar gays, mulheres, negros e pobres. “As pesquisas indicam que 28% dos brasileiros tem tendências socialistas contra 22% que tem tendências a direita. Então a esquerda vai permanecer e conseguir eleger deputados, em algumas regiões governador, mas não acredito na retomada do poder. Se o Bolsonaro for ruim, o rumo será outro, não será o retorno ao PT porque o baque foi muito grande. Acho que o petismo perde muita força, mas o lulismo como idolatria vai permanecer, assim como permaneceu o getulismo… Agora, a tendência do PT é diminuir ainda mais, mas não significa que as pessoas vão sair da esquerda, mas buscarão outros ninhos, como o Ciro Gomes”.
Sobre Haddad ter recebido muito mais votos no Nordeste, ele explica que nos estados mais pobres é natural que as pessoas sejam mais dependentes do governo e as políticas sociais do PT no Nordeste foram eficientes. “O PT levou esperança ao Nordeste, então é compreensível esses votos… A gente pode dizer o seguinte: quando a pessoa vai conseguindo melhores condições de vida, automaticamente ele vai migrando da esquerda para a direita, porque você descobre, com o tempo, que para fazer políticas sociais precisa tirar de alguém, então quando está sugando do outro você fica à esquerda, mas quando passa a ser o pagador, passa a odiar a esquerda”.