O Brasil ainda não chegou ao fundo

No ano passado, no aniversário de um amigo, um convidado falou da crise. O aniversariante então olhou para aquela churrasqueira cheia de carne e emendou: Crise? Se isso for crise então eu quero que continue assim!

Hoje se tem mais conforto, se come melhor, se tem mais tecnologia do que na geração de nossos pais. Mas a sensação é que isso não seria algo sustentável a longo prazo. Olhando para o cenário econômico, corremos o risco de virar uma Venezuela, com crise de abastecimento de comida, ou seja, o básico do básico.

O preço do feijão está nas alturas. Justo o Brasil que é um pais agrícola. Se nossa indústria é um fiasco, nos orgulhávamos do campo. Se o campo fracassar também, aí o fundo do poço chega bem rapidinho. Aí não vai mais ter churrasco nos aniversários. Feijão nem se fala. Talvez polenta.

Porém, é improvável que o agronegócio brasileiro quebre. É mais fácil os agricultores quebrarem. Entra outro no lugar e toca o barco. Mesmo sem pernas, o governo continuará tentando fazer com que a galinha dos ovos de ouro do Brasil não vá à bancarrota.

A sensação é que o Brasil vive aquela fase de paciente que não morre e não melhora. Dá até raiva. Ao mesmo tempo que tá pra morrer, ele tá comendo um churrasco. Aí você pensa que melhorou para comer carne gorda. No outro dia chega a notícia ruim de novo.

Já sou da opinião que é melhor descer aonde não tem mais fundura pra começar tudo do zero, bem feito, bem ajustado. Este chove e não molha, que parece uma morte lenta anunciada, é sofrer por antecipação algo que você sabe que vai sofrer de corpo presente.

Certa vez um amigo do meu pai, ao ouvir que todo mundo devia para todo mundo, deu a sugestão para começar tudo do zero. Sabe que, às vezes, é melhor derrubar tudo e reconstruir tudo do que tentar uma reforma! Acho que é o caso do Brasil.

Sabemos, entretanto, que não vai ter guerra civil e nem golpe militar. Então, a lava jato vai continuar prendendo os políticos, devagar, mas vai continuar. A crise econômica vai continuar piorando, devagar, mas vai continuar. Devagar, até o Brasil atingir o fundo do poço.

Conversando com algumas pessoas, elas também acham que o Brasil vai piorar mais para só depois melhorar. Vai piorar devagar, lentamente, agonizantemente. Acham também que o crescimento econômico só voltará daqui há alguns anos.

Ainda estamos na fase em que perdemos alguns privilégios, mas ainda mantemos muitos deles. Ora os brasileiros comem um churrasco e se esquecem que existe crise. Ora se desesperam. Mas o Brasil ainda não chegou ao fundo do poço.

O melhor seria uma mudança radical, rápida. Mas sabemos que não será assim. Será lento. Entre as piores escolhas, ainda é melhor que se descontrua, mesmo que lentamente, para poder reconstruir, do que ficar do jeito que era ou do jeito que está.

O jeito que era, era um Brasil de fantasia e de ilusões. O jeito que está, é um Brasil doente se esforçando para sobreviver e manter parte das ilusões. Mas este nunca foi o pais que os trabalhadores de verdade sonharam para o Brasil.

Queremos um pais em que o trabalhador seja respeitado. Queremos um pais de leis sérias. Queremos um país de educação de verdade. Queremos um país novo, que nos orgulhe de verdade. Esse país não existe, terá de ser criado e fica ‘lã longe’, após o fundo do poço.