Soldado norte-coreano vive há 60 anos em MT

Aos 82 anos, Kim Myeong-Bo divide o tempo entre a música em Cuiabá e a roça em Campo Verde

Kim se emociona ao lembrar terror da guerra da Coreia - Alair Ribeiro/MidiaNews

CUIABÁ – De segunda à quinta-feira, o norte-coreano Kim Myeong-Bo, de 82 anos se dedica a tocar piano na sala de casa no bairro Jardim Imperial, em Cuiabá. Desde criança, ele sempre adorou música e deixa isso bem claro para todos que conhecem.

Já de sexta-feira a domingo, ele se dirige até sua chácara em Campo Verde (137 km da Capital) para plantar, cultivar e colher verduras e frutas.

A vida tranquila que leva hoje em Mato Grosso, é bem diferente daquela que precisou passar para chegar até aqui. Kim Myeong-Bo lutou na guerra da Coréia, que durou de 1950 a 1953, e deixou mais de 4 milhões de mortos.

Diante do horror da guerra, o então jovem oficial, muito cristão, decidiu fugir. E a tarefa não foi fácil. “Se fosse hoje, pensaria duas vezes”, disse em entrevista ao MidiaNews.

O norte-coreano recebeu a reportagem em sua residência na tarde de quarta-feira (4). Vaidoso, ele trocou a camisa e penteou o cabelo para poder começar a entrevista.

Kim Myeong-Bo – que nasceu Yong Chong Kosong – contou que foi capturado por militares dentro da sala de aula para defender o país na guerra. Na época, ele tinha apenas 15 anos.

“Eu não me esqueço daquele dia. Era 25 de julho de 1950 quando eles [militares] chegaram à escola, pegaram todos os meninos e colocaram dentro de um caminhão. Fomos levados para um campo de concentração, na fronteira com a Coreia do Sul”, disse.

“Lá nos disseram que tínhamos que lutar pela nossa pátria que estava em perigo. Recebemos um breve treinamento, a exemplo, de aula de tiros, e depois começamos a marchar em direção a capital da Coreia do Sul”.

Ainda na fronteira, durante a marcha, Kim Myeong-Bo decidiu fugir, pela primeira vez. O plano, porém, não deu certo.

“Era uma região montanhosa, eu e mais 12 amigos corremos e ficamos escondidos nas pedras, mas acabamos capturados. Iam nos matar. O capitão nos colocou em fila e ordenou que ficássemos de costa para ele e começou a nos bater.  Bateu muito. Depois disse que não ia nos matar, perdoou”, afirmou.

Kim Myeong-Bo lutou pouco mais de 1 mês na a Coreia do Sul. Ele estava entre as tropas norte-coreanas que conquistaram Seul, a Capital do país vizinho.

Ele lembrou o horror da invasão. “Estava tudo arrasado com a guerra, tudo bombardeado, triste, muito triste”, lamentou.

Foi ali que Kim Myeong-Bo decidiu fugir de novo, só que dessa vez sozinho.

“Depois da invasão a Seul, ficamos dois dias para descansar em uma universidade. No dia que tínhamos que nos apresentar, eu fui, me apresentei, me afastei do grupo e fugi. Fiquei um dia sem comer nada, até que escutei uma voz na minha cabeça pedindo para eu ir atrás de uma casa. Fui lá, ainda uniformizado, bati palma, um senhor abriu metade da porta, colocou a cabeça para fora e eu contei minha história”, afirmou.

“Ele me mandou entrar. Disse que seu filho também havia sido capturado para ser soldado da Coreia do Sul e me deu abrigo, teve compaixão. Fiquei na casa dele durante alguns dias, ele me deu comida, roupa, sapato. Só que depois a Coreia do Sul, com ajuda dos Estados Unidos, resolveu atacar a Coreia do Norte e ele me disse com muita tristeza que eu tinha que partir, porque se revistasse a casa e encontrasse alguém, nos matariam”, disse.

Kim Myeong-Bo contou que saiu chorando da casa. Após dois dias perambulando e sem comer, decidiu se entregar ao inimigo.

Ele disse que era cristão e não queria ter que lutar. Um soldado americano decidiu testá-lo e exigiu que Kim falasse um trecho da Bíblia. Pediu que ele citasse João 3:16. Após ouvir a citação, bateu no ombro de Kim e disse que ele estava salvo. Kim virou prisioneiro de guerra e passou três anos preso em um campo de concentração na Coreia do Sul.

Índia e Brasil

Em julho de 1953, quando o cessar fogo foi assinado, Kim decidiu que não queria viver nem na Coreia do Norte e nem na Coreia do Sul. Ele pediu para que fosse levado a uma nação neutra. O primeiro país a recebê-lo foi a Índia.

Kim ficou três anos em Nova Deli, capital da Índia, até que recebeu a notícia que o Brasil havia aberto as portas para imigrantes. Primeiro veio para o Rio de Janeiro, depois São Paulo e seis meses depois de chegar ao Brasil, a igreja presbiteriana deu uma nova missão a Kim: ir para Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.

Foi aqui, em terras mato-grossenses, que o norte-coreano recomeçou a vida. O sustento veio da roça.

Comprou terra na cidade, conheceu e se casou com dona Vilma. Tiveram quatro filhos.

“Trabalhamos duro, duro, tinha gado, horta, chegamos a criar 17 mil frangos”, contou.

Há dez anos, ele decidiu vender a terra em Chapada dos Guimarães, comprou duas casas em Cuiabá e a chácara em Campo Verde.

“A Bíblia fala: hora de trabalhar e hora de descansar”, afirmou.

Saudade da família

Desde que foi capturado em 1950, Kim nunca mais teve contato com a família. Em 2015, ele refez parte do caminho que fez até chegar ao Brasil para um documentário de um grande cineasta sul-coreano, mas não entrou na Coreia do Norte. Tudo que trouxe foram duas garrafas com a terra da cidade natal.

“Meu pai e minha mãe morreram, mas meu irmão, um ano mais novo, e outro, três anos mais velho, não sei se tá vivo, se tá morto”, disse, emocionado.