Povos do Xingu decidem ficar em quarentena como prevenção ao coronavírus

CANARANA – No Mato Grosso, as principais associações indígenas e indigenistas do estado anunciaram na quarta-feira (18) que suspenderam por 60 dias as atividades externas nas aldeias, desde o início desta semana, por causa da pandemia do coronavírus (Covid-19). A preocupação das lideranças é em relação à vulnerabilidade imunológica dos povos indígenas e à falta de estrutura de equipamentos de saúde para atender casos suspeitos da doença nas comunidades.

Um dos líderes do Parque Nacional do Xingu, Mutua Mehinaku, da etnia Kuikuro, disse à Amazônia Real que todas as aldeias receberam orientações sobre o coronavírus e que os indígenas estão muito preocupados com a situação do contágio da doença respiratória.

“Está todo mundo de quarentena. Ninguém quer sair da aldeia”, disse Mutua Mihinaku.

Como divulgou a reportagem, a Associação Terra Indígena do Xingu (Atix) desenvolveu uma cartilha com orientações de prevenção ao coronavírus e já tinha planejado uma quarentena voluntária. Mutua afirmou que todas as aldeias possuem postos de saúde, mas que a estrutura de atendimento “é mais ou menos”.

“Temos um avião, custeado pelo governo federal, que fica na cidade de Canarana-MT. Se precisar de alguma urgência, ele chega na aldeia em 40 minutos”, disse Mutua.

No Mato Grosso, há uma população de 42 mil indígenas, conforme o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), esses povos tradicionais são de 40 etnias.

Só no Parque Nacional do Xingu, no nordeste do estado, vivem cerca de 7 mil indígenas, distribuídos em mais de 100 aldeias e 16 etnias: Aweti, Ikpeng, Kaiabi, Kalapalo, Kamaiurá, Kĩsêdjê, Kuikuro, Matipu, Mehinaku, Nahukuá, Naruvotu, Wauja, Tapayuna, Trumai, Yudja, Yawalapiti.

Mutua Mehinaku, de 40 anos, destacou que outra medida foi tomada pelas mulheres artesãs. Elas suspenderam as viagens que estavam planejadas para São Paulo, onde iriam divulgar seus trabalhos.

“É comum algumas indígenas fazer esse tipo de excursão, mas diante da pandemia do coronavírus elas decidiram permanecer nas aldeias”, contou o líder, que é mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No estado do Mato Grosso, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, trabalha com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei´s) Araguaia, Cuiabá, Kaiapó (MT), Xavante e Xingu.

Na terça-feira (17), a Sesai divulgou em seu site o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus (Covid-19) em Povos Indígenas. No documento, a secretaria faz um histórico clínico e sanitário dos povos indígenas e lembra da vulnerabilidade deles frente a contágios. Mas muitas organizações indígenas não tiveram acesso ao documento, que está disponível no site da instituição. No entanto, a maior parte das aldeias não tem internet.

O plano da Sesai foi divulgado após o Ministério Público Federal instaurar um procedimento para apurar as medidas que o governo federal está implementando junto aos povos indígenas e comunidades tradicionais, que incluem também os ribeirinhos e quilombolas.

O MPF notificou a Sesai, a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fundação Palmares, Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) e Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema), depois que a reportagem da Amazônia Real publicou que as organizações indígenas do país estavam tomando, por conta própria, as providências para impedir a disseminação da doença nas aldeias.

Leia a cartilha dos povos do Xingu.

Amazônia Real; Foto – Mário Vilela/Funai