Preso por engano em SP, jovem de MT tenta reconstruir a vida

CUIABÁ – Apesar de afirmar não ter cometido nenhum crime durante os 25 anos de vida, o mato-grossense Alisson Rodrigues dos Santos, passou nove dias preso em uma cela do Centro de Detenção Provisória de São José do Rio Preto (SP), para onde se mudou com objetivo de trabalhar e estudar. O jovem foi confundido com um homônimo e detido por homicídio triplamente qualificado.

Alisson conseguiu a liberdade no dia 27 de maio. Ele contou que após sair da cadeia ficou dois dias sem conseguir dormir e relatou ter medo de que a prisão por engano prejudique sua vida profissional e acadêmica.

Atualmente ele se prepara para começar a cursar engenharia civil em São José do Rio Preto (SP).

“O processo ficou com a defensora pública, mas sei que o verdadeiro Alisson cometeu crimes bárbaros. Acho que fui preso por um homicídio que ele cometeu, me disseram que ele era envolvido com o tráfico e decepou a mão de outro homem”, contou.

Ele foi preso perto do bairro onde morava em São Paulo, enquanto buscava um primo, que estava na garupa da sua motocicleta na hora em que a prisão foi anunciada.

“Viram dois homens em uma moto e acharam estranho, eles nos pararam. O policial perguntou meu nome, a cidade onde tinha nascido e o nome dos meus pais, virou para o parceiro e disse: ‘É ele mesmo’. Na hora me veio aquele riso de nervoso. Nunca cometi nenhum crime, não tenho passagens pela polícia. Como estava sendo preso?”, disse.

O crime havia sido cometido em Diamantino (a 229 km de Cuiabá). Município em que Alisson afirmou nunca ter morado.

Quando percebeu que seria, de fato, preso pelos policiais, Alisson esmoreceu. Ele contou ter pensado que a partir dali não teriam mais formas de provar sua inocência e que passaria, pelo menos, um mês em uma cela.

Cela lotada

O jovem conta com riqueza de detalhes sobre os dias em que precisou passar na prisão e dividia uma cela com até doze homens. Em dias mais “tranquilos” na cadeia haviam sete no mesmo espaço.

Em uma das noites ele contou ter tido medo de morrer, depois de pedir para que outro preso parasse de roncar.

“Sou uma pessoa educada. Não estava conseguindo dormir por causa do barulho do ronco desse senhor, que chegou lá muito nervoso, contando que já tinha ‘puxado’ mais de 20 anos de prisão, que era envolvido com criminosos perigosos. Ele me disse que eu estava na cadeia e que lá não era lugar de dormir”, lembrou.

Ele contou que a família recebeu a notícia da prisão com a mesma surpresa.

“Eles sabiam que eu não mexia com ‘coisas erradas’, que não tinha cometido nenhum crime. Então eles sabiam que alguma coisa estava errada”, contou.

Alisson também precisou lidar com o ambiente insalubre na cela compartilhada. De acordo com ele, os presos não costumavam limpar o local.

“Moro em uma casa nos fundos de outra residência, mas mantenho tudo muito limpo. Meu banheiro é limpo. Quando cheguei lá [na cadeia] até tentava limpar, revezava com outro preso que também limpava, mas era muito sujo. Também não fumo e eles fumavam 24 horas”, disse.

Processo contra o Estado 

Agora, enquanto tenta reconstruir a vida, Alisson pretende entrar com um processo contra o Governo de São Paulo pela prisão por engano. Ele contou sentir medo de que isso o prejudique a conseguir um emprego no futuro.

“Vivemos em uma sociedade que é dessa forma. Tenho medo de um dia procurar emprego e eles [os contratantes] verem nos registros que já estive preso”, explicou.

Apesar do acontecimento, o jovem contou que não carrega grandes traumas psicológicos.

“Quando me soltaram fiquei uns dois dias sem conseguir dormir, com medo de que algo pudesse acontecer”, disse.